quinta-feira, 9 de junho de 2016

este mundo novo

O primeiro ano letivo na escola pública está a terminar. Lembro-me que não ia com grandes expectativas e talvez por isso posso afirmar que o balanço foi bastante positivo. O que aconteceu de bom compensou os pormenores que me tiraram do sério.
Se é o ideal? Não é de todo. Se lhe arrumava a mochila e voltava a pô-la na escola anterior? Cheguei a ter vontade, era outro conforto e identificava-me muito mais, mas não a teria visto crescer como cresceu este ano por estar num espaço novo com novas pessoas na vida dela, a saber aplicar o que trazia consigo de diversas formas, no saberes, na pesquisa, nos trabalhos de grupo, nas escolhas do certo e do errado, na relação com os outros e por aí fora.

O que eu gostava mesmo era que mudassem a forma de ensino e o excesso de conteúdos que são injetados aos alunos. Na tentativa de quererem preparar as crianças e os adolescentes para "um futuro profissional de sucesso" falta o tempo para demonstrar o que aprendem diariamente na escola – atualmente o que é que consideram mesmo um futuro de sucesso?
As crianças precisam de ser visionárias e terem uma imaginação do caraças para perceberem que o que estão a aprender poderá ser-lhes útil no futuro.

Tenho tanta pena que as artes continuem a ser desprezadas. A disciplina de Educação Tecnológica (que ainda estou a tentar perceber o que é) há uns anos veio substituir as oficinas e trabalhos manuais, onde ainda era possível os alunos expressarem-se de certo modo livre sem o tipo de pressões exercidas nas disciplinas de matemática ou português. É uma pena que os trabalhos manuais tenham cada vez menos lugar na vida dos miúdos a partir duma certa idade. Chegam a adultos e correm o risco de acharem que quem é designer faz "bonecos" e quem faz crochet faz coisinhas.



Continuo a achar que uma aprendizagem mais descontraída e com ligação à vida real faria com que as crianças gostassem mais da escola. Os programas são extensos e existe uma pressão natural que vem não sei de onde para que sejam os melhores – mas o que é ser o melhor?
Recordo que numa semana de aulas em maio, a miúda teve um sarau de ginástica acrobática com treinos que preencheram duas tardes (atenção: até sou defensora do desporto escolar e é das melhores coisas que a escola pública tem), dois trabalhos de grupo para fechar e dois testes a somar aos TPC, isto é dose dupla para a idade de 11 anos, não concordam?

Quase que dava para criar um dia por semana destinado para fazerem os TPC dos outros quatro dias, revisões de conteúdos e para se dedicarem aos trabalhos de grupo, no fundo, uma espécie de dia de trabalho autónomo.

Por muitos debates que se façam, por muitos artigos que se escrevam sobre o tema, eu não consigo mudar de opinião: sou contra os trabalhos de casa, sejam estes quais forem. Não vão fazer com que os alunos sejam melhores ou piores. E quando enviam os TPC extra porque o fim de semana é prolongado fico ainda mais irritada. Há outras obrigações que as crianças podem fazer em casa e isso também lhes incute responsabilidade e autonomia. Diz-se que os trabalhos de casa servem para os alunos tirarem dúvidas… não concordo e nem vou explicar porquê, estou demasiado farta do assunto.

E o peso da mochila no 2º ciclo? É descomunal. A mochila vai além dos 4 kg, não devia ser permitido!
Imaginem os miúdos deixarem um dia destes a mochila em casa e cada um levar para a escola um garrafão cheio de água, é quase a mesma coisa! Provavelmente alguém iria impedir essa loucura pois não se admitiria que uma criança andasse a carregar um garrafão de água todos os dias dum lado para o outro, mas no caso da mochila carregadinha de livros ninguém liga nenhuma, parece que é normal.

A culpa é do tal negócio da china – os livros escolares. O formato A4 que todos os livros têm faz com que o aluno tenha de comprar uma mochila grande e resistente (logo, mais cara), e o papel é pesado para aparentarem bom aspecto e justificarem o seu preço, mas em contrapartida, a capa é mole para o negócio do papel autocolante e das capas plásticas não acabar, certo? Serão os livros mesmo necessários? Para mim os livros escolares são um dinheiro mal gasto. Era possível fazer-se de outro modo se não houvesse o monopólio disto tudo e se os interesses fossem verdadeiramente outros.

Agora, também já percebo o programa de Educação Física que os prepara para a vida militar! No meu tempo servia para descomprimir, aliviar tensões, aprender vários jogos, mas atualmente acho-o demasiado duro e já não é para qualquer miúdo, se calhar é para ganharem força para carregarem a mochila ao longo do ano letivo, é isso!

Poderia enumerar mais alguns pormenores que falham no sistema e vão continuar a falhar, mas com a necessidade de me focar no essencial, tive mesmo de ultrapassar isto.

No meio das pequenas desilusões, não posso deixar passar em branco a do Dia Mundial da Criança. A escola propriamente dita não tem culpa porque o evento decorreu fora da escola. A minha filha pensou que iria ter um dia semelhante ao que tinha na escola anterior, mas em vez de falar sobre os direitos das crianças, assistiu a uma apresentação feita pela CML sobre a futura Feira Popular onde perguntaram às criancinhas sugestões para tal projeto no meio de pipocas e balões. Até do grande parque de estacionamento lhes falaram…. Mas pronto, já passou, a criança é inteligente e percebeu que aquela conversa não era apropriada ao momento. Tenho esperança que para o ano não se repita, é que não fica nada bem mesmo que as intenções tenham sido, aparentemente, as melhores…


Pondo de parte os pormenores e dando prioridade ao que interessa, o que faz mesmo uma escola são os professores e os alunos estejam onde estiverem. E os pais são importantes para que as coisas não descambem quando tudo parece enfadonho e sem interesse. É um trabalho diário. Começa por estarmos atentos ao que aprendem na escola e tentar incutir-lhes o interesse no assunto para que a escola não se torne uma seca e continue um local de boas experiências e que o conhecimento seja considerado um bem precioso que os levará a fazerem boas escolhas, a serem mais livres e a defenderem-se.

E já agora, os professores não são intocáveis. É essencial que os alunos não tenham medo de lhes fazerem perguntas quando têm dúvidas. Há alunos curiosos e interessados que infelizmente são confundidos como indisciplinados e incomodativos. Convém que sejam os professores a esclarecerem as dúvidas, caso contrário, o nosso disco rígido começa a ficar confuso desde cedo. O papel dos pais passa também por lembrar isso aos filhos – é essencial perguntar quando não percebem, não se deixem ficar para trás.

Os professores são pessoas normais, têm maus dias como nós e também ficam doentes. A maioria está ali para nos ajudar e só precisamos de lembrar isso aos mais apressados. Tratam-nos bem se nós os tratarmos bem também. Podem ser acessíveis se nós também formos. Haverá sempre os que gritam e que confundem a autoridade com a motivação, os que fazem comentários inoportunos ou deitam cá para fora desabafos desnecessários dum dia que correu mal, mas também há os que nos ouvem, os que voltam a explicar uma e duas vezes e que nos fazem sentir importantes.

E podia ficar aqui a elogiar a escola pública por um lado e a matá-la por outro – resumindo os parágrafos todos, se estou arrependida? Não.

Um à parte: adoro encontrar desenhos rebuscados no meio dos resumos para testes ♥.

4 comentários:

Margarida disse...

E é assim. Tal e qual.

Apesar de tudo, não tão má quanto pode julgar quem está por fora.

Alexandra Pinto dos Santos disse...

Nem imaginas o que concordo contigo em relação a tudo isto que escreveste!!!
Também não concordo com os TPC, e muito menos extras em fins de semana grandes.
Os fins de semana devem servir para fazermos outras coisas... ir a um Museu, a um Parque ou simplesmente disfrutar do tempo em Família... enfim, muitos temos a mesma opinião, mas depois andamos todos tipo carneiros... as mentalidades nãos e mudam de um dia para o outro...
Este ano, por aqui, terminámos um 1.º ciclo e iremos iniciar o 2.º... trabalho redobrado para mim, que vou ter que estar muito atenta a tudo!
Um obrigada a ti, por me teres feito a 1.ª abordagem :)
Beijinho e Boas Férias,
Alexandra

Anita disse...

Ums reflexão interessante. Quanto ao peso das mochilas, acho estranho que nada seja feito contra isso... Terrível.

Virgínia Otten disse...

Concordo! Eles crescem mas não consigo evitar a tristeza que é ver o meu filho tão mal aproveitado. A escola, no nosso caso, ensinou-o a desmotivar, a trabalhar sem gosto... Por aqui a mochila pesa 6Kg e é carregada às costas todos os dias...em plena era tecnológica. Os professores faltam demasiado e a colocação de professor substituto parece tarefa impossível... O ensino (público?) está fora de prazo há muito!